Há algum tempo, tive uma conversa enriquecedora com Christiane Nicodemo, fonoaudióloga e especialista em audiologia e cuidados integrativos, sobre o papel da espiritualidade na saúde. Durante nosso bate-papo, ela compartilhou como seu interesse por esse tema surgiu a partir de suas raízes familiares. Apesar de sua família seguir crenças e religiões distintas, tanto de parte de mãe como de pai, todos sempre foram profundamente espiritualizados.
“Este é um tema muito relevante, pois estamos falando de espiritualidade, não de religião. Espiritualidade é aquilo que toca a pessoa, é o olhar que você tem para o sagrado que reside em você. Cada um sente, ouve e percebe o sagrado de uma maneira única. O mais importante é como você se conecta com ele”, explicou Christiane.
Embora o material científico sobre espiritualidade na saúde ainda seja limitado no Brasil, Christiane mencionou um estudo clínico randomizado realizado entre 2016 e 2018, que revelou um aumento de 22% nas pesquisas científicas sobre espiritualidade no campo da saúde. “Em apenas dois anos, a espiritualidade passou a ser abordada com base em evidências científicas e dados relevantes, o que abriu caminho para novas pesquisas. Pude perceber isso em minha prática de reabilitação auditiva de pacientes com zumbido”, destacou a especialista.
Segundo a Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e a American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery (AAO-HNS), o zumbido não é uma doença em si, mas um sintoma associado a diferentes condições de saúde, entre elas os fatores emocionais e neurológicos como estresse, ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

Christiane (foto) compartilhou uma observação interessante: “Percebi que pacientes com o mesmo diagnóstico e sintomas podiam ter respostas muito diferentes ao tratamento padrão. Isso me chamou a atenção, pois, ao interagir presencialmente com cada um deles, notei que os pacientes com alguma forma de conexão com o sagrado, independentemente da sua religiosidade, apresentavam uma melhora no quadro.”
A especialista também enfatizou a necessidade de mudar o paradigma atual sobre o cuidado com a saúde, que ainda está muito centrado na ideia de que ‘cuidar da saúde é ir ao médico para tratar uma doença’. Segundo ela, é fundamental dar ao conceito de “cuidar” um significado mais amplo, que envolva o cuidado de si mesmo de maneira holística — física, emocional e espiritualmente. “Cuidar de si é muito mais do que tratar sintomas, é ter coragem e desejo de viver bem e envelhecer com qualidade.”
Christiane mencionou a Escola Médica de Alexandria para ilustrar a origem do conceito de “cuidado”. Naquela época, antes de receber cuidados médicos, o paciente passava por um ritual que envolvia práticas como o jejum e o descanso em uma pedra dentro de uma gruta. Na Grécia, o termo ‘klinikos’ — que originou a palavra clínica — estava relacionado a um leito, mas o cuidado não era apenas físico. “Já se falava em cuidar do que se come, do que se pensa e até do sono. Esses princípios de cuidados integrados ainda são relevantes até hoje”, disse Christiane.
Para reforçar a importância da espiritualidade no enfrentamento das adversidades da vida, ela citou o livro Em Busca de Sentido, de Viktor Frank, um médico judeu que sobreviveu aos horrores de um campo de concentração. Christiane explicou como a espiritualidade pode nos ajudar a dar um novo significado a situações difíceis, reforçando a importância de encontrar um propósito, mesmo em meio ao sofrimento. “À medida que nos educamos, nos transformamos. A espiritualidade pode ser uma ferramenta essencial nesse processo, pois nos dá um norte, ajuda a ressignificar situações. Lidar com problemas de saúde crônicos, especialmente aqueles sem cura, é muito desafiador. Ter momentos sagrados para si mesmo pode ser uma forma de atravessar esses desafios com mais força e equilíbrio”, afirmou.
Ela ainda ressaltou a importância de cuidar de nosso corpo, que, segundo ela, é um templo que abriga a vida. “Cuidar de si é essencial. Nosso corpo não é só um conjunto de órgãos, mas um espaço sagrado, e precisamos tratá-lo com carinho e respeito.”
Para mim, Silvana, a espiritualidade na saúde tem um papel fundamental ao resgatar a humanidade e o afeto nos momentos de dor, especialmente quando somos forçados a enfrentar nossos próprios silêncios interiores. A conexão com o sagrado oferece uma perspectiva de acolhimento e entendimento profundo, que pode ressignificar nossa vivência da dor e da doença.
E para você, qual a importância da espiritualidade para a sua saúde?


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